Sem sal.
Não tenho hobbies, grandes ídolos artísticos. Não tenho um esporte favorito, um lugar de refúgio, um vício que extasie.
Nao rio à toa mas também nao busco razão pra sorrir. Apenas rio quando acontece de ser e meus sorrisos mais sinceros são silenciosos, quase suspiros. Muitas pessoas que riem de mim (ou por minha causa) acham que estamos rindo juntos. Jamais saberão que muitas vezes fazê-las rir é uma forma de nao ter que simular ou dissimular um sorriso, uma felicidade, um contentamento.
É uma forma superficial que me livra da superficialidade hipócrita. Abomino a superficialidade.
Não tenho grandes pretensões, não sei identificar um grande sonho que não seja tão genérico que pareça patético.
Minha maior inquietude é nao saber reconhecer o que me inquieta. Por nao gostar de nada especialmente, aprendi a amar todo o resto.
Por nao desejar uma única coisa exatamente, perdi quase todas as outras.
Por nao saber escolher, muitas vezes fiquei sem nada – e ninguém.
Passei grande parte do que já vivi acreditando e resistindo para conseguir por em pratica coisas que não recomendo a ninguém acreditar e suportar – nao por nao acreditar nelas, mas por duvidar da compensação do preço pago.
Fiz pessoas sofrerem muitas vezes exatamente porque me guiei pelo meu medo de fazê-las sofrer. E também sofri por isso, antecipando sofreres amargos que teriam sido prazeres, a realidade mostrou.
Eu consulto especialistas mas nunca dispenso amadores e iniciantes (eles podem muito mais pq ainda podem errar).
Eu adoro ser gentil, mas me constranjo com gentilezas. Amo tecer elogios, mas qualquer elogio me embaraça. Aprecio meu silêncio, mas tenho uma ansiedade por escutar.
Eu nao ligo para o que pensam do que penso, mas me preocupo que me interpretem mal.
Eu gosto de servir, mas me aborrece o oposto (eu convidaria todos os garçons para sentarem à mesa: me reviro toda vez que desejo mais um suco).
Eu crio expectativas como uma criança e finjo lidar com elas como um adulto (só o meu estômago sabe como é).
Por fim, nao ha nada em que eu seja muito bom embora nao haja nada em que eu nao me empenhe.
É claro que deve ser insano viver assim, e seria impossível sem fé.
Ah, esqueci de mencionar: eu tenho muita fé; só não sei em que.