Eu detesto o obvio.
O previsível me constrange.
Eu a vi e admirei por horas, discretamente.
Nos dias seguintes, busquei versões de elogios. Não consegui nada além do óbvio.
Odeio ter de dizer que ela é linda para expressar que ela é linda.
É um desafio.
Fico envergonhado, mas não por timidez. É pela pobreza do meu repertório.
Eu ficaria em silêncio em qualquer outra situação, só pra não me expor.
Mas a vontade de que ela saiba confunde até o meu ridículo.
Vaidade minha.
Foi depois dela que o óbvio teve um rosto.
Até então era intangível, indecifrável, porque óbvio.
Agora, pode ser desobviado pela vaidade.
Ela é linda.
É tão óbvio que o meu silencio descreve minuciosamente.
Se ela soubesse mais de mim, entenderia.
E me livraria da humilhação do óbvio.
Mas não acontece.
Não sei, acho que o obvio é que me detesta.