Como palhaço
Eu quero ser levado a sério assim.
Eu não aceito que levem a sério somente meu bom humor, minha graça. É absurdo, eu sei, pra um sujeito como eu.
Só que até o mais divertido ser deve ter silêncios e intervalos que precisam ser considerados pra que ele seja integralmente respeitado.
Eu quero que minha arte seja respeitada mais que o personagem.
Veja o palhaço.
Precisa ser levado a sério para que o imprevisto, o rompante, tenham sentido e graça. É preciso mais que se colocar no lugar dele: é preciso deixar que ele seja você pra encontrar o riso na estupidez. É preciso ser estúpido inocentemente.
Talvez por isso adultos não saibam se divertir com palhaços: nao sabem levar a sério os sentimentos alheios, respeitar o que não é espelho de si.
Não conseguem imaginar e vivenciar algo além da obviedade previsível de si mesmos.
Talvez por isso eu tenha tanta afinidade com crianças: elas riem por sentirem a vertigem da queda do palhaço.
Eu não quero que respeitem minha maquiagem, a cor do nariz, o sapato desproporcional.
Eu quero respeito aos tropeços, à lágrima que nem saiu, à garganta presa, ao silêncio.
Meu silêncio diz mais sobre mim que um seminário a meu respeito.
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