Enfim, escrevo.
Muitas pessoas me cobraram respostas sinceras e inteligentes, mas se recusaram a pensar se suas perguntas continham inteligência e sinceridade.
Estive silente por uma semana no facebook. Foi um silêncio de decantação, daqueles em que você percebe quanto é possivel aprender sobre você com você mesmo. E redescobre como é possível aprender com os outros.
Estive silente mas não ausente.
Observei todos os dias as coisas que foram escritas aqui, escutei muita gente, e minha primeira conclusão é: é preciso mais silêncio pra que as palavras tenham mais valor.
Silenciar, escutar e observar. Foi isso que fiz.
E agora posso falar com serenidade.
A última semana foi muito complexa, desafiou (e talvez tenha vencido) minha inteligência, minha capacidade de compreender muitas coisas. Quase caí na armadilha da arrogância militante que pensa ter todas as verdades apenas porque lhe fazem mais sentido.
Primeiro, ter o registro legal da Rede negado por uma formalidade burocrática cujo poder para comprovar foi delegado ao arbítrio (e aos interesses) de meros funcionários de cartórios.
Na democracia, O TSE transferiu o poder para cassar partidos a funcionários públicos sem autonomia, ao não exigir que cumpram a legislação que prevê: “em caso de dúvida o cartório deve tomar providências visando a regualizar a assinatura de apoio.” Pior, concedeu registro a partidos com comprovada ilegalidade no mesmo ponto. Não vou aprofundar meu entendimento sobre a agressão à essência da Constituição Federal e à democracia.
Sei que não é sobre isso que esperam minha fala. É sobre o gesto de aproximação com o PSB.
Serei direto: eu não teria feito. Apostaria na possibilidade de agregar a sociedade contra um cenário que foi consolidado pelas práticas políticas comum a todos os sujeitos públicos que se apropriaram do conceito da democracia para usar dele apenas a parte que lhes sirva.
Eu não faria. Mas talvez tivesse feito se nao fosse eu. Demorei para digerir (na verdade, passei mais tempo mastigando antes de começar a digestão), mas agora, depois do (meu) silêncio, estou tranquilo.
Vi amigos agindo como juízes do “tribunal do feicibuqui” ofendendo, subestimando, desacreditando e até adiantando votos numa eleição que sequer está posta. Na minha avaliação, é um descaso (menoscabo), um descarte do instrumento elementar da democracia representativa, o voto. Seguindo a prática estimulada mais e mais pelos donos do poder, redproduzindo a lógica predominante, votarão com o fígado (nem com o coração, nem com o cérebro, ambos possíveis de indicar o que seria melhor para o pais). Manterão uma postura que nao coloca na mesa projetos e avalia quais caminhos são possíveis para progredir e reduzir injustiças. Vomitam, esperando que o pais se alimente do gorfo.
Estou tranquilo, apesar de contrariado.
Nao é apenas questão de reconhecer que a verdade está além de mim. É um compromisso com transformações políticas que viabilizem sólidas (e não negociáveis eleitoralmente) transformações sociais. E essa qualificação da política exigirá alguma ousadia para, primeiro, destravar o debate e ,depois, aprofundar a busca por soluções que viabilizem um governo que possa negociar a viabilização de seu programa e não apenas da sua manutenção no poder – a qualquer custo.
Esta claro que nao basta ter boas propostas, bons projetos temáticos e ideológicos no Brasil. Ha bons programas em alguns partidos. O PT (no programa que, espero, é a única coisa a manter o fanatismo dos apoiadores – a pratica nao pode ser), tem um projeto de pais muito bom. O limite nao esta nas boas intenções nem na capacidade de formular. Há um limite político, que estagna e amordaça a aplicação do próprio projeto, por estar baseado em duas coisas: primeiro, bases de apoio que, por não serem sólidas nem coerentes, acuam o governo com chantagens sistematicamente, e exigem retrocessos para aprovar avanços; além, há a confusão entre o que é negociação e concessão para conseguir governar e aplicar o programa e o que é concessão cuja troca consiste em empréstimo meramente eleitoral visando a reeleição (tempo de televisão, palanque em estados).
O PT poderia assumir o enfrentamento desta realidade (por estar no poder e ter bases social), assumir um pacto com a sociedade, informando abertamente e buscando apoio para que alianças sejam feitas para viabilizar seu programa e nao em detrimento dele, não somente com o fim de varrer para si qualquer milésimo de segundo de propaganda eleitoral.
Porém, cada vez mais, ao invés de caminhar para as bordas recorre ao centro estagnado. Cada vez mais promíscuas relações com financiadores reconhecidamente exploradores do Brasil e menos respeito a seus projetos; alianças com políticos e lideranças que exigem negar ou relativizar sua história e até as razões que justificam sua existência e acesso ao poder.
O modelo de “governabilidade que se confunde com reeleitorabilidade” mantido pelo governo do PT permitiu identificarmos estes limites (criação de Ministérios e cargos para abrigar chantagistas, negociação da presidência de Comissões no Parlamento, relativização e supressão de legislação, perseguição a forças políticas divergentes etc). E o que se revela é que o limite é própria coerência.
Não seria o PSDB, também sabidamente disposto ao vale-tudo em eleições e governos e, pela mesma lógica, já comprometido com partidos e interesses que apenas buscam ser inquilinos das instâncias de governo, sem projeto nem contexto político que indique disposição para transformar esta realidade, não seria, pois, quem poderia qualificar este debate e promover um salto da democracia.
Apenas para não ignorar, acredito que o PSOL poderia ter uma proximidade sincera com a Rede Sustentabilidade (mesmo com grandes divergências), mas, infelizmente, a postura dominante no partido não tem disposição nem para dialogar com suas divergências internas (como dito por militantes e políticos do partido, a “liberdade” contida em seu nome muitas vezes não passa de teoria). Seria uma força na luta pela democratização da democracia.
Diante deste cenário, foi pensada uma POSSIBILIDADE de a Rede Sustentabilidade e Marina Silva apoiarem a candidatura de Eduardo Campos. Nâo é um apoio dado. Nos próximos meses será realizado um profundo debate em torno dos programas e, principalmente, das posturas e propostas diante destas travas da prática política e da democracia, a começar pelos critérios para aceitar alianças eleitorais. Atenção: o compromisso assumido é de construir um PROGRAMA que permita à Rede (e à Marina) manterem a coligação e apoio para campanha.
Por outro lado, o PSB, identificando os empecilhos colocados ao Registro Legal da Rede Sustentabilidade, firmou uma “coligação democrática”, reconhecendo a Rede como partido legítimo e oferecendo um ABRIGO aos membros da Rede que desejem ser candidatos e foram privados pela Justiça Eleitoral: usando a sigla do PSB, poderão ser candidatos e eleitos com autonomia e poderão, assim, que registrada, migrar para a Rede Sustetabilidade.
Na minha leitura, este é o cenário que me tranquiliza. Sem compromisso e prática, sem apoio.
Forme sua convicção livremente, apenas tome cuidado para não ser prisioneiro das próprias convicções e, principalmente, não ser “inocente útil” ao aceitar e reproduzir críticas preconceituosas, sem fundamento ou injustas. Mais que nunca, o interesse em desqualificar é maior que o de informar e debater. Posturas intransigentes, pregando desconfiança só favorece quem não tem propostas a debater.
Marina fez um gesto digno e inteligente, que certamente terá destaque em sua biografia. Talvez no capítulo dos méritos, junto com incontáveis amostras de lucidez e honestidade, talvez no capítulo das falhas, pela ousadia de ter acreditado e, em nome de um país melhor, prescindido do protagonismo e arriscado em vão – o que não deixaria de ser um mérito.
A história dirá.
Estou em paz!
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